Ficaram do inventário nominadas a mim
as gavetas entulhadas, anos de acúmulo de vida
aniversários videocassetes parafusos pilhas vazadas tachinhas velas partidas ao meio
tudo aquilo que a Junta Comercial esqueceu ser espólio
assim como o verão na piscina de plástico
e o prêmio de folego para meus pulmões
que armazenavam todo ar que havia entre as crianças de 7 a 8 anos
e os peixes e cavalos-marinhos foram meus melhores amigos
e ninguém acreditou quando contei dos átomos
porque eram muito conscientes de seus corpos.
— eu ainda não sabia
e as outras crianças também
que eu tinha era um cavalo dentro de mim —
Ficaram de fora também os sonhos de lua cheia e lençóis rasgados na altura dos pés
os pedidos feitos ao anjo da guarda já que fraquejava a coragem da bala de prata:
quando meu avô morreu a espingarda ocupou todo o espaço da parede tornou-se imensa enorme
e não se pode mais carregá-la e transmitir seu poder de metal a mais ninguém.
— meu cavalo
um dia domado
estourou as porteiras e
rompeu com o mundo —
Em papel oficial foram marcadas as parreiras de uva
antes disputadas com os sanhaços:
embaixo delas as tarde santas se passaram
com sons que apenas as mulheres podem manusear
de panelas tampas copos talheres sabão e água
e assim como na fábula da raposa nós
crianças sentadas na beira da cacimba
espichando os olhos de desejo e desdém
— o meu cavalo
arrastou consigo apenas a cacimba seca
do quintal de minha avó e
passou anos tecendo o barro
até enche-la de água novamente —
e dos bichos restou apenas Pinta
a galinha que não tinha consciência de sua marca no pescoço
e alçava voos apenas rumo ao varal de roupas
único horizonte possível e
foi a consciência do seu corpo de galinha que
impeliu minha aproximação das paneladas sendo cozidas
e hoje a reencontro sem bico sem penas na cumbuca de canja
ainda assim mantendo seu pacto
— o cavalo em mim
cavou uma cacimba
cheia de água salgada que nunca mais seca —
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
I'd like to know where she is now
você foi como um descuido meu de cafeína
pura forma de vogal anterior fechada não arredondada
timbre de música que sempre faz
ainda que nossos corpos fossem pura cisma
e as xícaras só o aviso de disritmia
o nosso amor foi mesmo
essa máquina de café nespresso
pura forma de vogal anterior fechada não arredondada
timbre de música que sempre faz
I miss you, darling, darling, darling
ainda que nossos corpos fossem pura cisma
e as xícaras só o aviso de disritmia
o nosso amor foi mesmo
essa máquina de café nespresso
be near me, darling, darling, darling
tipo de encantamento momentâneo
dividido em doze parcelas sem juros
e mais algumas doses de dissimetria e de requestadas
sem chamativo e que expiraria
como a caixa de leite
quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
Polvo papão
Foi por você que contrariando
as estações do ano e as aulas de física
notei que havia mudado
a inclinação da Terra
e que a rachadura da janela
se iluminava antes mesmo
dos lençóis sulcarem o veredicto.
como naquele brinquedo da infância
de um velho navio pirata em que
o polvo com longos tentáculos
fechava e abria simultaneamente
seus tesouros, e, os desavisados,
por sua vez, tentavam a sorte
fazendo uso de objetos pontiagudos
na empreitada da captura:
eis uma moeda
e agora uma pérola
e ali as garrafas de vinho
quem coleta mais objetos
como se gira a roleta dos prêmios
é a cotovia ou o rouxinol que canta
— afinal, estávamos ainda no
séc. xx em que a técnica era algo formidable —
e o polvo fechava as gavetas e baús e conchas
nos entregávamos aos manuais de ciência
e eu podia te comprovar que, sim, ainda era verão
em algum lugar, ainda havia de ter
navios flutuantes sem tesouros pinças, e,
boiando apenas pelo empuxo do desejo.
as estações do ano e as aulas de física
notei que havia mudado
a inclinação da Terra
e que a rachadura da janela
se iluminava antes mesmo
dos lençóis sulcarem o veredicto.
como naquele brinquedo da infância
de um velho navio pirata em que
o polvo com longos tentáculos
fechava e abria simultaneamente
seus tesouros, e, os desavisados,
por sua vez, tentavam a sorte
fazendo uso de objetos pontiagudos
na empreitada da captura:
eis uma moeda
e agora uma pérola
e ali as garrafas de vinho
quem coleta mais objetos
como se gira a roleta dos prêmios
é a cotovia ou o rouxinol que canta
— afinal, estávamos ainda no
séc. xx em que a técnica era algo formidable —
e o polvo fechava as gavetas e baús e conchas
nos entregávamos aos manuais de ciência
e eu podia te comprovar que, sim, ainda era verão
em algum lugar, ainda havia de ter
navios flutuantes sem tesouros pinças, e,
boiando apenas pelo empuxo do desejo.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
12º par
a costela que ganhei
vai até os
limites da pele e
volta:
quando eu era criança,
minha mãe esfregava
vichy no meu peito
nas horas da noite:
é por isso que
até hoje ao olhar as horas
com o limite da costela
penso que se isso fosse uma tosse,
não seria bem assim:
e busco o cheiro de mentol
e busco o gelado do mentol
e busco uma mão que em
meu peito diga:
agora durma,
já está tudo bem.
quando eu era criança,
minha mãe me deu um fio de contas
e dizia:
reza, que dorme.
anjinho da guarda,
meu bom amiguinho
me faça fechar os olhos
e dormir, me tira o medo
da noite e a angústia do dia
me leve sempre pelo caminho
que eu puder ir e dormir em paz
amém
vai até os
limites da pele e
volta:
quando eu era criança,
minha mãe esfregava
vichy no meu peito
nas horas da noite:
é por isso que
até hoje ao olhar as horas
com o limite da costela
penso que se isso fosse uma tosse,
não seria bem assim:
e busco o cheiro de mentol
e busco o gelado do mentol
e busco uma mão que em
meu peito diga:
agora durma,
já está tudo bem.
quando eu era criança,
minha mãe me deu um fio de contas
e dizia:
reza, que dorme.
anjinho da guarda,
meu bom amiguinho
me faça fechar os olhos
e dormir, me tira o medo
da noite e a angústia do dia
me leve sempre pelo caminho
que eu puder ir e dormir em paz
amém
quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
colher de chá
sinto a dor na
lombar e me vem o aviso
vigiai as emoções
tão desequilibradas
exibicionistas
minhas melancolias
herdadas da gaveta de
mamãe
que não se encerram
nem com
xícaras e xícaras de
chá
cenoura inhame batata
doce e mel
um fígado que se
assemelhasse a um deus grego
sem cólera sem
remorsos sem ciúmes
tomo a canja às
colheradas
no meu próprio silencio
protejo o pescoço
me ofereço às agulhas
me entrego aos livros
o sofrimento é um
pouco de performance
minha professora de
literatura
me ensinou que toda escrita
é uma farsa
justo ela que era
portuguesa
e instrutora de yoga
quis dobrar a
única palavra que nos
uniu
entre navios mares e
violências:
afinal, só escreve quem precisa perder
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
bottle plant is blooming marvellous
Acordo com olhos pesados de arquivista
como um corpo que passa pela noite
à espera de mim mesma:
que me acorde
que me sinta
que me chame.
Verifico e ainda estou aqui:
meus pés, minhas mãos;
desvelam-me —
como a uma criança escondida
em um pique-esconde
em que jamais acabasse a contagem
sentindo nas entranhas
o estalar da espera.
Ainda está também o vidro:
uma abóboda perfeita
sem haze, float
irisação, rachaduras.
Sem uma cutícula a ser arrancada
e contornada até mostrar apenas:
o interior.
— os botânicos do século passado
tiveram mais cuidado:
dispuseram plantas
em suas garrafas de vidro
as lacraram com
rolhas de madeira
as colocaram em
um spot de destaque —
abro os olhos, e, entretanto:
bottle plant is blooming marvellous.
como um corpo que passa pela noite
à espera de mim mesma:
que me acorde
que me sinta
que me chame.
Verifico e ainda estou aqui:
meus pés, minhas mãos;
desvelam-me —
como a uma criança escondida
em um pique-esconde
em que jamais acabasse a contagem
sentindo nas entranhas
o estalar da espera.
Ainda está também o vidro:
uma abóboda perfeita
sem haze, float
irisação, rachaduras.
Sem uma cutícula a ser arrancada
e contornada até mostrar apenas:
o interior.
— os botânicos do século passado
tiveram mais cuidado:
dispuseram plantas
em suas garrafas de vidro
as lacraram com
rolhas de madeira
as colocaram em
um spot de destaque —
abro os olhos, e, entretanto:
bottle plant is blooming marvellous.
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
em busca de ser nomeável
por nossas partes
há uma taxiologia das dores:
esse arranhão aos sete
de meu crime inconfesso
essa mancha dos catorze:
do desejo desenfreado
a falha dos vinte e um:
da espera silenciosa por você
o quebrar-se de um gato
há cada 7 anos
é preciso testar
puxar os cantos
ver a textura
esperar que seja o momento -
e ai sim:
eis me:
sangue e epiderme
em quantidades exatas de exposição
rechear e mascarar
cuspir, esperar outra coisa:
durante o verão
em que enchi os bolsos de missangas
e os pés de barro com sandálias
e minhas mãos com as suas
aprendi a esperar pela chuva
o inevitável
irrefreável
me vencendo.
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