a costela que ganhei
vai até os
limites da pele e
volta:
quando eu era criança,
minha mãe esfregava
vichy no meu peito
nas horas da noite:
é por isso que
até hoje ao olhar as horas
com o limite da costela
penso que se isso fosse uma tosse,
não seria bem assim:
e busco o cheiro de mentol
e busco o gelado do mentol
e busco uma mão que em
meu peito diga:
agora durma,
já está tudo bem.
quando eu era criança,
minha mãe me deu um fio de contas
e dizia:
reza, que dorme.
anjinho da guarda,
meu bom amiguinho
me faça fechar os olhos
e dormir, me tira o medo
da noite e a angústia do dia
me leve sempre pelo caminho
que eu puder ir e dormir em paz
amém
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
colher de chá
sinto a dor na
lombar e me vem o aviso
vigiai as emoções
tão desequilibradas
exibicionistas
minhas melancolias
herdadas da gaveta de
mamãe
que não se encerram
nem com
xícaras e xícaras de
chá
cenoura inhame batata
doce e mel
um fígado que se
assemelhasse a um deus grego
sem cólera sem
remorsos sem ciúmes
tomo a canja às
colheradas
no meu próprio silencio
protejo o pescoço
me ofereço às agulhas
me entrego aos livros
o sofrimento é um
pouco de performance
minha professora de
literatura
me ensinou que toda escrita
é uma farsa
justo ela que era
portuguesa
e instrutora de yoga
quis dobrar a
única palavra que nos
uniu
entre navios mares e
violências:
afinal, só escreve quem precisa perder
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