quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

12º par

a costela que ganhei
vai até os
limites da pele e
volta:
quando eu era criança,
minha mãe esfregava
vichy no meu peito
nas horas da noite:
é por isso que
até hoje ao olhar as horas
com o limite da costela
penso que se isso fosse uma tosse,
não seria bem assim:
e busco o cheiro de mentol
e busco o gelado do mentol
e busco uma mão que em
meu peito diga:
agora durma,
já está tudo bem.
quando eu era criança,
minha mãe me deu um fio de contas
e dizia:
reza, que dorme.

anjinho da guarda,
meu bom amiguinho
me faça fechar os olhos
e dormir, me tira o medo
da noite e a angústia do dia
me leve sempre pelo caminho
que eu puder ir e dormir em paz
amém

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

colher de chá


sinto a dor na lombar e me vem o aviso
vigiai as emoções
tão desequilibradas exibicionistas
minhas melancolias
herdadas da gaveta de mamãe
que não se encerram nem com
xícaras e xícaras de chá
cenoura inhame batata doce e mel
um fígado que se assemelhasse a um deus grego
sem cólera sem remorsos sem ciúmes
tomo a canja às colheradas
no meu próprio silencio
protejo o pescoço
me ofereço às agulhas
me entrego aos livros
o sofrimento é um pouco de performance

minha professora de literatura
me ensinou que toda escrita
é uma farsa
justo ela que era portuguesa
e instrutora de yoga
quis dobrar a
única palavra que nos uniu
entre navios mares e violências:

afinal, só escreve quem precisa perder