Foi por você que contrariando
as estações do ano e as aulas de física
notei que havia mudado
a inclinação da Terra
e que a rachadura da janela
se iluminava antes mesmo
dos lençóis sulcarem o veredicto.
como naquele brinquedo da infância
de um velho navio pirata em que
o polvo com longos tentáculos
fechava e abria simultaneamente
seus tesouros, e, os desavisados,
por sua vez, tentavam a sorte
fazendo uso de objetos pontiagudos
na empreitada da captura:
eis uma moeda
e agora uma pérola
e ali as garrafas de vinho
quem coleta mais objetos
como se gira a roleta dos prêmios
é a cotovia ou o rouxinol que canta
— afinal, estávamos ainda no
séc. xx em que a técnica era algo formidable —
e o polvo fechava as gavetas e baús e conchas
nos entregávamos aos manuais de ciência
e eu podia te comprovar que, sim, ainda era verão
em algum lugar, ainda havia de ter
navios flutuantes sem tesouros pinças, e,
boiando apenas pelo empuxo do desejo.
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