quarta-feira, 1 de abril de 2020

poema sem título para me lembrar de não me deixar capturar por quem não vai me dar a mão na noite escura da vida

você me chama com seus cílios alongados
que nunca sentiram o hálito da terra seca
vasculha minha bolsa e vai puxando
fio a fio do meu tecido:
te aviso, cuidado, isso é carne e osso e sangue
eu não sou uma abstração, você
não me chama por aquela palavra
que começa com I e eu sento
ao lado e espero que termine sua
investigação: lá estão meus órgãos à mostra
eu queria te contar da minha juventude
eu queria te mostrar meus braços
eu queria te falar de como me afoguei em uma cacimba
eu queria te contar que eu sabia como era estar em baixo da terra
eu queria te explicar porque meus calos nunca secavam
mas você já empunhava
e agora um pulmão
e depois um fígado
e depois um dos rins
conhecia-o, era o mesmo passado ano após ano
mão após mão entre os que chegaram aqui
que nunca me toca
meus ossos que atravessaram a terra
agora apenas um saco de osso gritando pela cobra-cega
dos corações miseráveis
a palavra que começa dentro de você
e se recusa a expandir até as minhas cavidades
já é apenas um eco longe e
minha pele esfriando com minha própria água
lembra das lições de mamãe
ser pega em uma camboa
a laço, em um imihnó
não me deixar confundir pelas águas claras
de ninguém que não me levasse
também pela mão durante a noite

no centro da cavidade ainda resta
aquilo protegido apenas pelo breu
e é ele que me lembra
não mais não mais não mais não mais




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