quinta-feira, 28 de novembro de 2019

bottle plant is blooming marvellous

Acordo com olhos pesados de arquivista
como um corpo que passa pela noite
à espera de mim mesma:
que me acorde
que me sinta
que me chame.

Verifico e ainda estou aqui:
meus pés, minhas mãos;
desvelam-me 
como a uma criança escondida
em um pique-esconde
em que jamais acabasse a contagem
sentindo nas entranhas
o estalar da espera.

Ainda está também o vidro:
uma abóboda perfeita
sem hazefloat
irisação, rachaduras.
Sem uma cutícula a ser arrancada
e contornada até mostrar apenas:
o interior.

— os botânicos do século passado
 tiveram mais cuidado:
dispuseram plantas
em suas garrafas de vidro
as lacraram com
rolhas de madeira 
as colocaram em 
um spot de destaque — 

abro os olhos, e, entretanto:
bottle plant is blooming marvellous.










quarta-feira, 6 de novembro de 2019


em busca de ser nomeável
por nossas partes
há uma taxiologia das dores:
esse arranhão aos sete
de meu crime inconfesso 
essa mancha dos catorze:
do desejo desenfreado
a falha dos vinte e um: 
da espera silenciosa por você
o quebrar-se de um gato
há cada 7 anos

é preciso testar
puxar os cantos 
ver a textura
esperar que seja o momento -
e ai sim:
eis me: 
sangue e epiderme
em quantidades exatas de exposição

rechear e mascarar
cuspir, esperar outra coisa:
durante o verão 
em que enchi os bolsos de missangas
e os pés de barro com sandálias 
e minhas mãos com as suas 
aprendi a esperar pela chuva
o inevitável
irrefreável
me vencendo. 


a criança que não tive


ficou perdidana pasta de papéis
na assinatura de um contrato
na tomada da sala de espera
na janela que não abre mais
no lixo pelo chão da casa
no chão do box do banheiro
no meio da sala de reunião
no soluço que não foi
na palavra que não aparece
no estômago baço na cartela de remédios
não quis ficar -perdeu-se nas páginas de meu livro
o quarto dos fundos e o da frente
boiou em minha xícara de chá
na água do escalda pé
comi-a em colheradas.
a espera de um nome,como todo desejo,
a forma redonda de um desconforto:
uma mulher nas pálpebras
uma mulher
na garganta:
mas a perda não se narra.