sombra e água fresca, era disso que se tratava minha irmã
no além mundo: me enterrem em baixo de uma árvore
não quero passar calor para sempre
dizia dentre o cemitério cheio
era dia de finados
me lembro do cheiro da vela
só quem já viu sabe
era no meio de tudo, um lugar das velas
para as almas do purgatório
o cheiro do calor e da parafina
não sabiam onde estava a vala de meu tio
morreu antes do um ano
de uma doença de doente
se fosse vivo, teria xx anos
mas não estava
foi nesse mesmo dia
que houve uma confusão entre as fotos de lápide tambem
não tem graça nenhuma colocarem uma foto minha aí,
emburrou minha irmã
mas era apenas minha bisa
a genética tem dessas coisas
como também aqueles irmãos ou primos
que se mataram e se amarraram numa moto
e se arrastaram pela estrada de terra
e isso não era ficção
foi bem na casa ao lado
não sei o parentesco quanto a mim
mas lá foi
e uma mãe que tem de fazer isso
no final das contas, se eu conhecesse os gregos nessa época
teria pensado muito mais nisso,
mas não pensei.
é sempre a genética que te faz achar que já está no além mundo
mas você ainda tem cinco anos
e não pode riscar o fósforo das velas
era sempre no dia de finados
uma peregrinação pelos túmulos
quanto a mim, rogava juras de além mundo
quero conchas do mar no túmulo
nada de branco calcário barato
nada de mármore
nada de grama crescendo em mim
sim as conchas do mar
e ria alegre da maresia em alguns túmulos
por muito tempo me esqueci disso
não frequentei mais o dia de finados
só pisei no cemitério um ano depois que meu primeiro avô morreu
sempre que vejo um velho no ônibus
me lembro do cheiro de meu avô
lembro de seu túmulo de flores
do canivete que usava para descascar laranjas e dizia
roda e a letra que cair, é para onde vai viajar
que virou um grande cronista pouco antes da morte
e contava de suas caçadas e contava de suas pescarias
e morreu pescando, essa coisa maluca que junta as pontas das águas
que uma vida pode ter
até que um dia o oráculo-poeta disse
olhe lá, você precisa de um concha
seu zunzunzunido
precisa de uma concha
e quem já esteve de frente pra uma concha bem sabe
que ou você ecoa ou você faz eco
ou já tem uma lesma morando nela
ou logo menos, logo menos vira enfeite de casa de praia
quando minha avó morreu não quis saber de cemitério
não contei a ninguém
não comprei flores
não chorei
não sabia seu cheiro
mas me lembrei da minha vala de conchas
e cá está: quando eu morrer, coloquem meu corpo numa concha e:
vai ser is that all, folks.