quarta-feira, 1 de abril de 2020

poema sem título para me lembrar de não me deixar capturar por quem não vai me dar a mão na noite escura da vida

você me chama com seus cílios alongados
que nunca sentiram o hálito da terra seca
vasculha minha bolsa e vai puxando
fio a fio do meu tecido:
te aviso, cuidado, isso é carne e osso e sangue
eu não sou uma abstração, você
não me chama por aquela palavra
que começa com I e eu sento
ao lado e espero que termine sua
investigação: lá estão meus órgãos à mostra
eu queria te contar da minha juventude
eu queria te mostrar meus braços
eu queria te falar de como me afoguei em uma cacimba
eu queria te contar que eu sabia como era estar em baixo da terra
eu queria te explicar porque meus calos nunca secavam
mas você já empunhava
e agora um pulmão
e depois um fígado
e depois um dos rins
conhecia-o, era o mesmo passado ano após ano
mão após mão entre os que chegaram aqui
que nunca me toca
meus ossos que atravessaram a terra
agora apenas um saco de osso gritando pela cobra-cega
dos corações miseráveis
a palavra que começa dentro de você
e se recusa a expandir até as minhas cavidades
já é apenas um eco longe e
minha pele esfriando com minha própria água
lembra das lições de mamãe
ser pega em uma camboa
a laço, em um imihnó
não me deixar confundir pelas águas claras
de ninguém que não me levasse
também pela mão durante a noite

no centro da cavidade ainda resta
aquilo protegido apenas pelo breu
e é ele que me lembra
não mais não mais não mais não mais




sexta-feira, 20 de março de 2020

a mulher precisa ter um frasco de SBP Insteticida Aerossol

A mosquinha cinza de banheiro
alça voos em minha mesa
tenta pousar na mão parada sobre o papel
dou uma chacoalhada e
ela sai mexendo seu corpinho bobo
antes de deixar seu rastro de microscópico cocôzinho
a mosquinha tem uma vozinha esganiçada
e puxa uma ladainha sem fim
as batatas ainda estão com a casca
a farinha ainda está no saco
as roupas já estão fedendo dentro da máquina
olha seu cabelo! não tem shampoo em casa?
a colgate não vê o escuro da sua boca há diassss sssss sssss
sei que a mosquinha cinza de banheiro é insignificante
podia mantê-la em baixo do meu dedo por menos de um segundo
ah que horror que sujeira! 
quantos dias dura uma mosquinha de banheiro google pesquisar
olha eu vou ser bem sincera aqui se você fosse pra ser a 
próxima virginia woolf tinham endereçado até aqui nesse lugarzinho
um Anjo Celestial para farfalhar as asas nas suas costas
ela sabe que não posso olhar no fundo
das suas centenas de milhares de olhos
e move seu corpinho ao meu redor
mas ao invés disso mandaram 
uma Psychoda cinerea por favor
agora deixe já de bobeira
largue essa caneta
se afaste desse papel
e vá lavar o quintal
mas toda mulher que se preze toda mulher
toda mulher que faz a lista de mercado
toda mulher que tem uma casa
guarda secretamente depois das incertezas
inseguranças contas a pagar unhas a fazer
um frasco de SBP Insetisida Aerosol
e lá vai seu corpinho suspenso no ar
juntinho a poeira não aspirada do chão

saio de minha mesa, seguro meu chá
enquanto exclamo oh my darling, that's terrible!!!!

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

uma cacimba que nunca seca

Ficaram do inventário nominadas a mim
as gavetas entulhadas, anos de acúmulo de vida
aniversários videocassetes parafusos pilhas vazadas tachinhas velas partidas ao meio
tudo aquilo que a Junta Comercial esqueceu ser espólio
assim como o verão na piscina de plástico
e o prêmio de folego para meus pulmões
que armazenavam todo ar que havia entre as crianças de 7 a 8 anos
e os peixes e cavalos-marinhos foram meus melhores amigos
e ninguém acreditou quando contei dos átomos
porque eram muito conscientes de seus corpos.

— eu ainda não sabia
e as outras crianças também
que eu tinha era um cavalo dentro de mim —

Ficaram de fora também os sonhos de lua cheia e lençóis rasgados na altura dos pés
os pedidos feitos ao anjo da guarda já que fraquejava a coragem da bala de prata:
quando meu avô morreu a espingarda ocupou todo o espaço da parede tornou-se imensa enorme
e não se pode mais carregá-la e transmitir seu poder de metal a mais ninguém.

— meu cavalo
um dia domado
estourou as porteiras e
rompeu com o mundo —

Em papel oficial foram marcadas as parreiras de uva
antes disputadas com os sanhaços:
embaixo delas as tarde santas se passaram
com sons que apenas as mulheres podem manusear
de panelas tampas copos talheres sabão e água
e assim como na fábula da raposa nós
 crianças sentadas  na beira da cacimba
espichando os olhos de desejo e desdém

— o meu cavalo
arrastou consigo apenas a cacimba seca
do quintal de minha avó e
passou anos tecendo o barro
até enche-la de água novamente —

e dos bichos restou apenas Pinta
a galinha que não tinha consciência de sua marca no pescoço
e alçava voos apenas rumo ao varal de roupas
único horizonte possível e
foi a consciência do seu corpo de galinha que
impeliu minha aproximação das paneladas sendo cozidas
e hoje a reencontro sem bico sem penas na cumbuca de canja
ainda assim mantendo seu pacto

— o cavalo em mim
cavou uma cacimba
cheia de água salgada que nunca mais seca —





quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

I'd like to know where she is now

você foi como um descuido meu de cafeína
pura forma de vogal anterior fechada não arredondada
timbre de música que sempre faz

                                                    I miss you, darling, darling, darling

ainda que nossos corpos fossem pura cisma
e as xícaras só o aviso de disritmia
o nosso amor foi mesmo
essa máquina de café nespresso


be near me, darling, darling, darling


tipo de encantamento momentâneo 
dividido em doze parcelas sem juros 
e mais algumas doses de dissimetria e de requestadas
sem chamativo e que expiraria 
como a caixa de leite

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Polvo papão

Foi por você que contrariando
as estações do ano e as aulas de física
notei que havia mudado
a inclinação da Terra
e que a rachadura da janela
se iluminava antes mesmo
dos lençóis sulcarem o veredicto.

como naquele brinquedo da infância
de um velho navio pirata em que
o polvo com longos tentáculos
fechava e abria simultaneamente
seus tesouros, e, os desavisados,
por sua vez, tentavam a sorte
fazendo uso de objetos pontiagudos
na empreitada da captura:
eis uma moeda
e agora uma pérola
e ali as garrafas de vinho
quem coleta mais objetos
como se gira a roleta dos prêmios
é a cotovia ou o rouxinol que canta

— afinal, estávamos ainda no
séc. xx em que a técnica era algo formidable —

e o polvo fechava as gavetas e baús e conchas
nos entregávamos aos manuais de ciência
e eu podia te comprovar que, sim, ainda era verão
em algum lugar, ainda havia de ter
navios flutuantes sem tesouros pinças, e,
boiando apenas pelo empuxo do desejo.