porque a verdade é que deveria
ter te dito, lá naquele dia de verão
quando acordei antes de tudo
que ainda achava você a coisa mais
bonita do mundo que já havia habitado
a minha vida
ou, ainda, que deveria ter dito a fulana que
eu gostava de ver a risada dela
ainda que eu odeie gente rindo
mas que eu podia contar no calendário
só para ver ela rindo e mostrar os dentes e as gengivas
-eu não vou mentir, ela mostrava as gengivas
não era nada muito bonito-
eu deveria, ainda, ter confessado que só
gostei daquela poeta porque a pele dela era meio algo
místico e mágico, e eu pensava: não há como escapar
e eu li, também, que o amor é feito de ossinhos e ouro e mel
e deveria ter te dito que eu achava isso verdade
mas que você era mais ouro e mel
não havia osso algum
mas a única verdade é que eu mesmo no dia que consegui
falar tudo, vi que já estava ocupando a mesa demais
gesticulando demais, falando demais
e a felicidade demais pareceu uma espécie de culpa
mas faltou, ainda, te dizer que já havia imaginado todos
aqueles diálogos, com outros personagens, contudo,
mas muitas vezes e muitas mais que vezes
mas eu só conseguia te falar daquele livro que estava lendo
e de como o seu novo corte de cabelo me lembrava o poema do t.s. elliot
mas eu nunca disse nada
porque para eu não mentir
a verdade final de tudo
é que eu só sei ver a vida, mas participar da vida
isso eu deixo para os corredores, que sabem girar e girar no mesmo circuíto
e podem fazer isso por anos a fio
até o grande dia
em que terminam
lhe metem uma medalha e fim
a verdade é que eu, quando fico triste
só me consolo em um livro.
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